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Crônicas
Explicando
o Iron
Autor: Maximilian F. L.eisner
Ano: 2004 |
Sempre
tem alguém que pergunta:
"Como é fazer um Ironman?".
Pois bem, baseado nas
experiências de alguns
colegas, e em minhas próprias
desventuras, acho que
"fazer um Iron" é mais
ou menos assim:
Você tira alguns dias
de folga, e vai para Florianópolis
com a família na última
semana de Maio. Aí, quando
chegar o sábado, você
acorda lá pelas quatro
e meia (da madrugada,
não da tarde), e da uma
espiada pela janela. Lá
fora, faz bastante frio,
e venta um pouco. Um pouco
demais. Então, ao invés
de voltar para a cama
como qualquer pessoal
normal, você toma café,
enfia-se (literalmente)
em uma roupa de borracha,
veste uma touca colorida,
e pendura no pescoço uns
óculos engraçados. Finalmente,
apesar do frio, do vento,
e principalmente da total
ausência de sol, você
vai à praia, trajado feito
uma formiga em dia de
carnaval.
Lá chegando, você é conduzido,
junto com mil e poucos
outros desequilibrados
que também acordaram de
madrugada, e estão usando
a mesma fantasia ridícula,
até uma espécie de "curralzinho"
na beira da praia, onde
fica aguardando um sinal
para sair correndo. E
quando o sinal chega,
você realmente sai correndo,
só que não de volta para
cama, como seria de se
esperar, mas para dentro
d'água. Que diga-se de
passagem, está muito gelada.
A partir daí, se você
sobreviver aos primeiros
dez minutos sem ser mutilado
pela avalanche humana
que invade o mar, resta
continuar nadando mais
uns 3,5 km - sem parar,
para não ser afogado pelos
que vem atrás, e principalmente
para não congelar.
Quando, e se, você chegar
na areia, o primeiro pensamento
é correr de volta para
cama. Mas, antes que seja
isto seja possível, meia
dúzia de lutadores de
jiu-jitsu lhe jogam no
chão, arrancam sua roupa
de borracha, sua touca,
e seus óculos (e não raro
sua sunga ou maiô). O
único caminho, então,
é pegar outra muda de
roupas em uma tenda branca,
parecida com aquela das
Mil e Uma Noites, e seguir
em frente. Você entra
na tal tenda de sunga,
e sai do outro lado feito
o Aladim, vestindo um
turbante de plástico,
uns sapatinhos engraçados
com salto no meio, e umas
roupinhas coloridas. Só
que para percorrer os
próximos 180 km, ao invés
de tapete mágico, há somente
bicicletas. Portanto,
assim que você consegue
achar a sua, no meio das
mil e tantas outras estacionadas
do lado de fora da Tenda
Mágica, é hora sair para
um passeio pela "Ilha
da Magia". Você passeia
e sorri para o público
que lhe aplaude, passeia
mais um pouco e sorri
para o pessoal que fica
preso nos engarrafamentos
causados pelos mil ciclistas
invadindo o centro da
cidade, continua passeando
e sorri até para os competidores
que lhe deixam para trás.
E aí você passeia mais
um montão, e quando chega
no lugar de onde saiu,
percebe, para seu absoluto
desespero, que é necessário
dar mais uma volta. E
então, talvez por causa
da dor nas pernas e nas
costas, e da assadura
na virilha, você sente
que embora o cenário seja
o mesmo, o seu humor vai
ficando bem diferente,
e passa a ignorar o público,
xingar os motoristas que
estão no engarrafamento,
e mostrar o dedão para
os competidores que lhe
ultrapassam.
Finalmente, como não há
mal que sempre dure, você
chega novamente ao local
de partida. Desta vez,
você desce da bicicleta,
obcecado por voltar à
cama, mas antes que possa
fazer meia volta e fugir
daquele inferno, os simpáticos
voluntários lhe indicam
um outro corredorzinho,
que leva, adivinhem....
novamente para a Tenda
Mágica.
E aí os seus problemas,
que você achava que tinham
acabado, realmente começam.
Já sem a bicicleta, diante
do corredor, o seu cérebro
diz "em frente". Ato contínuo,
sua perna esquerda vai
para a direita, sua perna
direita vem para a esquerda,
e seu corpo balança para
o lado que o vento está
soprando. Amparado pelos
voluntários você recupera
o equilíbrio e, feito
um filhote de girafa recém
nascido em busca da mãe,
começa a percorrer o caminho
que leva de volta à tenda,
sob os calorosos aplausos
e fervorosas orações dos
espectadores.
Dentro da tenda mágica,
novamente uma transformação.
Entra o filhote de girafa,
sai o Homo Meio Erectus,
(achando que está) pronto
para um jogging de 42
km pelas redondezas. A
respeito desta corridinha,
acho que é suficiente
dizer que, durante a mesma,
ateus convertem-se em
crentes, crentes viram
agnósticos, católicos
abraçam muçulmanos, muçulmanos
rezam para a Virgem Maria,
e todos os anjos e santos
deste planeta, e de outros
próximos, são mobilizados.
Eventualmente, e a despeito
de tudo o que conspirou
para que isso não acontecesse,
praticamente todos cruzam
a linha de chegada. Uns
bem, outros mal, e muitos
bem mal. Mas todos, sem
exceção, realizados. É
isso mesmo: realizados!
Por quê?
Sinto muito, o título
lá em cima diz claramente:
"Explicando o Iron" e
isso eu já fiz. "Entendendo
o Iron" é coisa para Freud,
Jung e seus comparsas.
Maximilian Frederick Leisner
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