|
|
|
 |
|
|
Aventura no Nepal
A viagem ao Nepal foi idealizada
por Manoel Morgado, médico pediatra,
formado pela Faculdade Paulista
de Medicina, que, há alguns
anos, abandonou a prática médica
e passou a se dedicar à atividade
de guia de aventuras em países
como Índia, Bali e Nepal, entre
outros da região.
Um dia, Manoel assistiu à chegada
de uma equipe de rafting que
voltava do rio com dois participantes
paraplégicos de origem inglesa.
Para quem não sabe, rafting
é uma atividade esportiva radical
em que 6 a 8 pessoas, em geral,
controlam um barco inflável,
descendo corredeiras de um rio.
Após se impressionar com a alegria
e entusiasmo dos ingleses, Manoel
passou a sonhar em realizar
algo semelhante com brasileiros.
Juntamente com a Freeway, companhia
de turismo ecológico, a qual
está vinculado no Brasil, iniciou
contatos com empresas que poderiam
patrocinar o projeto.
As dificuldades foram grandes,
mas, finalmente, surgiram os
patrocinadores, sendo o principal
deles, e que realmente viabilizou
o projeto, a Elma Chips, através
de seu produto Doritos, que
doou ao grupo uma quantia suficiente
para custear a passagem e estadia
da maioria dos participantes
bem como despesas gerais importantes
como a contratação de uma equipe
de filmagem para documentar
tudo em vídeo. Também participaram
do projeto com contribuições
importantes a Otto Bock do Brasil,
que custeou a ida de 2 participantes,
Jaguaribe, Hand Drive, Fórmula
Academia e o Centro Marian Weiss.
Foram 9 participantes portadores
de deficiência física, sendo
2 com lesão medular - o Edson
e o Lois, ambos usuários de
cadeiras de rodas e 7 amputados,
3 acima do joelho - o Ranimiro,
o Cássio e o André - e 4 abaixo
do joelho - o Rivaldo, o Luiz,
o Cláudio e eu.
A viagem toda durou 21 dias.
Devido à distância do Nepal
e a conseqüente falta de vôos
diretos, tivemos que ir primeiro
à Londres, de lá à Delhi, na
Índia, e, então, para Kathmandu,
a capital do Nepal. Isto nos
tomou 2 exaustivos dias. Já
aí ficou notável a falta de
estrutura dos aeroportos e aviões
para acomodar e deslocar pessoas
portadoras de deficiência física,
principalmente os que utilizam
cadeiras de rodas.
Em Kathmandu, onde chegamos
em uma inesperada noite fria
e chuvosa, fomos carinhosamente
recebidos por um entusiasmado
Manoel. Descansamos o dia seguinte
com apenas uma visita à cidade
pela manhã. Aí tivemos nosso
primeiro contato com o povo.
Foi uma das grandes experiências
vividas pelo grupo. Creio que
por dois fatores importantes:
a curiosidade inocente e sem
preconceito das pessoas e o
fato de todos estarem em um
lugar novo, sem vínculos mais
permanentes. O fato é que se
criou um clima muito leve e
cordial na relação entre as
pessoas do grupo e a comunidade
nepali.
Os cadeirantes demonstravam
uma deficiência de maneira óbvia
e os amputados, já neste primeiro
dia, em sua maioria se mostravam
de calção e sem esconder o aparelho
protético sob cobertura cosmética.
As pessoas, crianças ou adultos,
se aproximavam curiosas e perguntavam
quem éramos, o que havia acontecido
etc. Havia momentos em que não
dava para diferenciar quem era
o turista ali - se nós visitando
o país ou se o povo de lá, nos
visitando.
No segundo dia começou a aventura
- vôo de balão.
Trata-se do mais alto vôo de
balão do mundo para turistas.
Isso porque a gente já sai de
1.800 metros acima do nível
do mar, onde está Kathmandu.
Subindo mais 1.200 metros atingimos
um total de 3.000 metros acima
do nível do mar. Um certo truque
de propaganda. De qualquer forma
o vôo é excitante e muito bonito.
Voamos sobre o vale de Kathmandu
por cerca de 45 minutos com
uma belíssima vista da Cordilheira
do Himalaia, no horizonte. No
dia seguinte, pegamos um ônibus
para Pohkara, uma linda cidade
situada à beira do lago de mesmo
nome e que seria a nossa base
para o rafting no rio Kali Gandaki
e para os vôos de ultraleve
e parapente. Em Pohkara, no
lago, fizemos um treino de comandos
para o rafting e aprendemos
a virar e desvirar o bote, caso
capotássemos. A equipe que nos
levaria para a aventura era
super profissional. Descemos
o rio com 2 barcos para o pessoal,
2 barcos com carga e 6 kaiaks
de segurança. Os kaiaks de segurança
são muito importantes, pois
são os primeiros a chegar perto
de um barco virado e seus ocupantes
na água. A quantidade de kaiaks
e a habilidade de seus pilotos
vai determinar o grau de segurança.
O Kali Gandaki é um rio cujas
corredeiras são classificadas
como de grau 4 plus, o que o
coloca no limite para ser percorrido
por turistas. Não foi brincadeira.
Logo no primeiro dia, o nosso
barco, ao bater em uma rocha,
"cuspiu" quase todos os seus
ocupantes na água, no meio da
corredeira. Só ficamos o guia
e eu. O resgate foi eficiente
e tranqüilo, aumentando a confiança
do grupo na segurança. No segundo
dia, nosso bote virou. Desta
vez foi 100% na água. Dá para
assustar bastante, pois quando
estamos na água, rio abaixo
naquela corredeira toda, a gente
se sente bem desamparado e com
medo. Mais uma vez o resgate
funcionou muito bem. Daí para
frente as coisas correram melhor
e não houve mais capotagens.
O rafting durou 5 dias. As noites
foram passadas em acampamentos
montados nas margens.
Todos trabalhavam dentro de
seus limites. Ou na cozinha
ou na montagem de tendas e barracas.
Foram noites memoráveis, com
direito a rum, chá e muita conversa
ao pé do fogo. A interação entre
os dois grupos - o pessoal de
suporte e os portadores de deficiência
física - foi acontecendo com
a convivência. Em dois dias
a turma já estava integrada.
A alegria era geral. No final
do rafting, havia dois guias
e bicicletas esperando pelos
que quisessem voltar pedalando
os 100 km até Pohkara. Era só
subida, não se esqueçam que
nós havíamos descido o rio.
Nos aventuramos Rivaldo, Cláudio
e eu. No primeiro dia foram
35 km. No final deste dia o
Cláudio e o cinegrafista resolveram
pegar uma carona com turistas
da Tailândia, pois o traseiro
deles estava no limite. A estrada
era de asfalto esburacado. Não
existe piso pior para pedalar.
No dia seguinte completamos
os 65 km restantes. O Rivaldo
tirou de letra, pois é um triatleta
que participa do circuito brasileiro
de triatlon. Eu confesso que
sofri um bocado. Quando chegamos
a Pohkara, mesmo caminhar era
difícil e doloroso para os músculos
da coxa. Nada que no dia seguinte
já não estivesse bem melhor.
O passo seguinte foi voar de
ultraleve. Pohkara fica aos
pés da Cordilheira do Anapurna,
montanhas belíssimas, brancas
o ano todo, com altitudes em
torno de 6.000 metros.
O ônibus partiu para o Chitwan
National Park, levando a turma.
Ficamos para trás o Lois, o
cinegrafista Dado, que a esta
altura já era um querido amigo,
e eu. O sol estava nascendo
quando fomos para o aeroporto..
Lá nos esperavam dois pilotos
russos com seus ultraleves duplos
para os vôos. Cada vôo durou
1 hora e foi algo inesquecível.
Voamos até as montanhas e as
sobrevoamos a grande altitude.
A emoção foi enorme e a paisagem
é deslumbrante. O Lois, que
é voador de asa delta experiente
queria mais é estar ele mesmo
pilotando uma asa. Para mim,
tudo era novo e fascinante.
De lá, fomos de taxi, nós três,
para Chitwan. Trata-se de um
santuário ecológico onde os
animais são protegidos. O hotel
fica no parque. Existe uma área
comum aos hóspedes, com refeitório
e área de lazer. As pessoas
ficam distribuídas em chalés
para dois ao redor da construção
principal. Veados, elefantes,
tigres (não vimos nenhum) e
rinocerontes, são alguns dos
animais selvagens que vivem
na área. A principal atração
é o passeio de elefante. Existe
uma plataforma alta onde os
elefantes se encostam. Dela
podemos passar diretamente para
um tipo de cela sobre o elefante
que comporta até 4 pessoas,
incluindo o "piloto".
Sobre esses enormes e gentis
paquidermes pudemos passear
sobre as trilhas da floresta
sem perigo e sem assustar os
animais selvagens, pois eles
permitem a aproximação dos elefantes,
mais que do homem. Ficamos 2
dias em Chitwan. De lá, novamente
no ônibus, voltamos a Kathmandu.
O Rivaldo em companhia do Manoel
fez a viagem de bicicleta. Foram
160 km bastante difíceis, que
eles fizeram em 2 dias. Descendo
uma serra, o Rivaldo levou um
tombo, se ralando todo e deslocando
um dedo da mão. Ele mesmo colocou
o dedo no lugar com um puxão
e seguiram viagem. Quando examinei
o dedo, já no hotel em Kathmandu,
estava muito inchado e doído,
mas bem posicionado. Só restou
imobilizar por alguns dias para
permitir a cicatrização dos
ligamentos lesados.
Mais 2 dias em Kathmandu e iniciamos
nosso retorno a São Paulo.
Algumas coisas importantes surgiram
como fruto dessa viagem. Primeiro,
que é possível de ser feita,
tanto por cadeirantes como por
amputados. A infraestrutura
da maioria dos aeroportos se
mostrou bastante inadequada
para os cadeirantes, que chegaram
a ter dissabores importantes.
Ao embarcar na volta de Delhi
para Londres, o Edson teve de
ser carregado no colo até sua
poltrona e o Lois foi engatinhando
para o seu lugar.
Bom, a maior finalidade desse
projeto era exatamente verificar
sua viabilidade para que outras
pessoas portadoras de deficiência
pudessem ter parâmetros de referência.
Concluímos, resumidamente, em
relação à esta aventura o seguinte:
1. Todos aproveitaram muito,
tanto os portadores de deficiência,
como as pessoas envolvidas no
suporte do projeto.
2. Foi notável a soltura dos
portadores de deficiência física,
mesmo os mais inibidos, em uma
interação com as diferentes
comunidades com que se envolveram.
3. Nas atividades aquáticas
fica bastante evidente a maior
dificuldade dos amputados femorais,
pela falta de uma prótese que
seja à prova d’água. Os amputados
transtibiais, todos com pé de
carbono e metais inóx, puderam
usar as próteses na água sem
limitação. Deslocar-se de muletas
no rio e em suas margens mostrou-se
bastante difícil.
4. Os cadeirantes, no deslocamento
pelos campings tiveram muita
dificuldade devido ao terreno
irregular. Isso era o esperado
e para contornar o problema
o staff sempre tem que ter gente
forte e disposta para carregar
esse pessoal nas costas ou nos
braços.
5. A atitude psicológica dos
portadores de deficiência física
perante a comunidade e vice-versa
foi altamente positiva. Possivelmente
contribui para isso o fato de
se tratar de uma situação temporária,
como se a pessoas tivessem tirando
umas férias também das suas
dificuldades e preconceitos
do cotidiano. Todos tiveram
uma chance de observar o seu
problema de um novo prisma percebendo
que esta relação pode ser diferente.
Esta foi, sem dúvida, a contribuição
mais notável. Dr.
Marco Antonio Guedes de Souza
Pinto
(fonte http://www.centromarianweiss.com.br)
|
|
|
|
|
|
|
|